Guilherme Amaral Luz. Carne Humana: canibalismo e retórica jesuítica na América Portuguesa (1549-1587). Uberlândia: Ed. da Universidade Federal de Uberlândia, 2007.
A obra editada pela Universidade Federal de Uberlândia é a tese de doutorado em História Social defendida pelo autor em 2003 na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Em forma de ensaio, ele repensa, à luz do pensamento jesuítico do século XVI, o canibalismo na América Portuguesa. A prática de ingestão de carne humana foi intensamente abordada pelos europeus que vieram à América como se pode observar nos relatos de Staden, Léry e Schmidl que indiciavam “costumes nunca antes imaginados”. Costumes esses que não eram analisados tomando como base critérios etnográficos mas, principalmente, religiosos, políticos e morais. As diferenças de narrador e a utilização de comparações, entre outros elementos, visavam, mais do que retratar a “verdade” desta prática, a estabelecer julgamentos morais. Dessa forma, observamos que, mesmo com opiniões diferentes, os cronistas apresentam o canibalismo como algo condenável, que, no entanto, poderia ser superado através do arrependimento e da consequente conversão à “verdadeira religião”. Não é pretensão do autor estudar a questão dos índios em si porém se propõe a uma ampla releitura de fontes quinhentistas com o objetivo de “recriar, mediante as preocupações historiográficas do presente, os debates implicados na invenção retórico-histórica do canibal”. Esta invenção, sustenta o autor, precisa ser rearticulada “a uma visão teológico-política”, característica do pensamento jesuítico do século XVI.
O canibalismo analisado à luz da retórica jesuítica na América Portuguesa
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