Plinio Junqueira Smith (Org.). Luiz Antonio Alves Eva( trad.) . Dos Canibais. São Paulo: ed. Alameda, 2009.
Michel de Montaigne viveu na época dos Descobrimentos e foi o primeiro grande pensador europeu a fazer referência ao Brasil. Para construir suas narrações, além das leituras mencionadas o filósofo utilizou como fonte de pesquisa as histórias contadas por um de seus criados, que viveu por dez ou doze anos entre os índios tupinambás, na baía da Guanabara, por ocasião da malograda tentativa de Nicolas Villegagnon de implantar a França Antártica no Brasil. Outras fontes entretanto atestam que Villegagnon trouxe do Brasil 3 caciques tupinambás para serem apresentados à corte de Carlos IX, e Montaigne ao vê-los não teria ficado horrorizado perante cultura e tradição tão distintas. Ao contrário, dialogou com eles com ajuda de intérprete e tal contraste induziu-o à comparação com os europeus, analisando a “civilização moderna” em confronto com a “barbárie". Para Montaigne, num jogo sutil de argumentação, os “bárbaros” não seriam aqueles que habitavam a parte desconhecida do mundo, mas sim os indivíduos que se encontravam no Velho Mundo. O conceito de homem como ser natural não era novo. Ele está presente nos escritos de Aristóteles, mas ficou abandonado durante toda a Idade Média, para reaparecer em seus escritos. A Antropologia de Montaigne começava com um voltar sobre si mesmo- a autoconsciência. O homem seria mais feliz e melhor, diz ele, se procurasse se conhecer e se aceitar como é.
A primeira publicação deste texto clássico Dos canibais data de 1580 e esta nova edição brasileira organizada por Plínio Junqueira Smith induz o leitor a melhor compreender e avaliar outro povo, aproximando o desconhecido e interpretando seus costumes e práticas de modo a nos levar a entender nossa própria sociedade.
