Apresentado em 2000 como Tese de Doutorado ao Departamento de História da Universidade Federal Fluminense, este livro em seu título, por metáfora, já diz a que veio ...
Daniela Buono Calainho. Metrópole das Mandingas : Religiosidade Negra e Inquisição Portuguesa no Antigo Regime. Rio de Janeiro: ed. Garamond, 2008.

Apresentado em 2000 como Tese de Doutorado ao Departamento de História da Universidade Federal Fluminense, este livro em seu título, por metáfora já diz a que veio: mostrar que os cultos e ritos africanos misturados ao catolicismo permearam os subterrâneos das crenças não só no Brasil mas no próprio Portugal durante os séculos XVI e XVII. A obra percorre os caminhos dos ritos praticados pelos jambacousses, sendo que o mais destacado era a mandinga, ou seja, o uso e tráfico da bolsa de mandinga. Originária do reino de Mali, região islamizada, a bolsa era um saquinho contendo algum versículo do Alcorão. À medida que o uso da bolsa se expandiu no espaço atlântico foi aumentando de tamanho e diversificando seu conteúdo: lascas de pedras d’ara, balas de chumbo, olho de gato, osso de defunto. Toda essa crença tinha como intuito proteger o corpo, entre outros fins. A Inquisição Portuguesa por outro lado decretou a condenação de todas as crenças estranhas à Igreja e condutas adversas à moral católica, no Reino e nos domínios do império ultramarino, durante três séculos. Instaurada em Portugal em 1536, por solicitação régia, passou a condenar então heresias perseguindo e processando apóstatas, feiticeiras, sodomitas, bígamos, mouriscos e, sobretudo, cristãos-novos. Os réus, julgados e sentenciados conforme a gravidade dos delitos, enfrentaram o degredo, a dureza das galés, a humilhação dos açoites públicos e dos hábitos penitenciais quando conseguiam escapar da pena capital: a fogueira. Muitos mandigueiros foram queimados vivos na fogueira.
