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Requerimento de Joaquim de Souza Negrão ao príncipe regente em que defende a necessidade e utilidade de criar uma cadeira de música nos lugares mais povoados da colônia, sustentando que na sua cidade mais antiga é admirável o abandono em que se encontra a música.

Requerimento de Joaquim de Souza Negrão ao príncipe regente em que defende a necessidade e utilidade de criar uma cadeira de música nos lugares mais povoados da colônia, sustentando que na sua cidade mais antiga é admirável o abandono em que se encontra a música. O autor do requerimento se  oferece para o cargo desta cadeira, alegando sua competência para este.  
 
Conjunto documental: Ministério do Império. Correspondência do presidente da província
Notação: IJJ9 325

Data-limite: 1817-1817
Título do fundo: Série Interior
Código do fundo: AA
Argumento de pesquisa:
Data do documento: s.d
Local: Bahia
Folha(s): 44

Leia esse documento na íntegra

Diz José Joaquim de Souza Negrão, que influindo na civilização dos povos a cultura das artes, ainda as de mero gosto, como, poesia, pintura, música, e sendo da benévola intenção de vossa majestade promovê-las como se prova do estabelecimento de cadeiras régias de desenho,1 e de poética; parece, que uma cadeira de música,2 estabelecida ao menos nos pontos mais povoados de um país nascente, e tão útil, como necessária não só para conseguir os fins que resultam de se promoverem as artes liberais,3 como para obviar os vícios, que procedem de uma indolência ociosa; pois que a mocidade grosseira, e inerte, em vez de amaciar a aspereza dos costumes, adoçando-os com a suavidade da música, embota o gênio com o suco das paixões, e quebra os laços mais santos, que ligam os homens a sociedade. Se a política, e a religião dependem da cultura do ânimo, é de admirar, que na mais antiga cidade do Brasil4 exista numa espécie de abandono a música, esta arte amiga e filha de coração humano! Nos teatros é frio o louvor da virtude, inconseqüente a correção do vício, quando as artes se desligam do centro comum a que tendem por natureza. E o que é mais, os cânticos devidos ao criador do Universo ressoam nos templos sem estro, e quase sem harmonia, quando sobem ao céu por meio de vozes incultas, ou contrafeitas, o que não, seria, havendo mocidade que logo nos primeiros anos se dê a música por princípios. E por que no suplicante concorrem conhecimentos teóricos, e práticos desta arte; e é superabundante a coleta do subsídio literário; por tanto, recorre a Vossa Majestade pedindo, que a bem da mocidade da Bahia, e utilidade do teatro, como escola civil do Estado, e mais que tudo para Glória da religião se digne fazer criar nesta cidade uma cadeira de música, a qual a suplicante Seja promovido com o mesmo ordenado das outras cadeiras régias.5 Pelo que R.M.

ilegível Negrão



1 Desenhistas e pintores ocuparam, durante a maior parte do período colonial, um papel secundário na produção artística da época. As atividades que eles desenvolviam se enquadravam nas mais variadas atividades “mecânicas”, desde a elaboração de descrições topográficas para a construção de fortalezas, até a pintura de tábuas das bocas das sepulturas, havendo portanto uma fronteira muito tênue entre o que hoje chamaríamos arte (belas artes) e os ofícios mecânicos e artesanatos diversos. O estudo do desenho era requisito apenas para quem fosse trabalhar nas áreas de construção e engenharia, mas em outras áreas de estudo o suporte dado por esta atividade mostrou-se fundamental. É o caso, por exemplo, da chamada história natural, que contava com a fidelidade da reprodução dos elementos da natureza para a precisão dos seus estudos. José Joaquim Freire e Joaquim José Codina, por exemplo, viajaram com a Expedição Filosófica liderada por Alexandre Rodrigues Ferreira à região que hoje corresponde ao norte do Brasil. Os “riscadores,” como eram conhecidos os desenhistas dedicados ao registro científico do mundo _ homem e natureza _ produziram vários desenhos e aquarelas sobre a fauna e flora da região amazônica, e também acerca da vida das tribos indígenas. Suas obras buscavam criar um quadro objetivo e realista daquilo que retratavam, com o intuito de melhor aproveitar os elementos da nova terra, ao mesmo tempo em que indicavam quais os seus maiores perigos e ameaças.   No final do século XVIII, muitos artistas viajaram para a Europa e trouxeram para a colônia técnicas mais aperfeiçoadas que seriam transmitidas para seus aprendizes. Foi o caso de Manuel Dias de Oliveira fundador da primeira Aula Pública de Desenho e Figura no ano de 1800. Mas apenas com a chegada da Família Real, se deram as condições básicas para que a arte do Desenho assumisse um papel primordial no aprendizado das belas-artes. Com a vinda da comissão de artistas franceses e a necessidade do estabelecimento do ensino de artes e ofícios no meio acadêmico, seriam também regularizados os ensinamentos básicos de desenho em vista de sua aplicação nos estudos de escultura, gravura, arquitetura, entre outras modalidades.  
2 A musica sempre foi uma forma de expressão artística muito popular no Brasil colonial. Talvez os gêneros musicais mais conhecidos e difundidos entre as elites fossem a opera, apresentada em alguns poucos teatros no final do século XVIII, e a musica sacra, ensinada e tocada pelos jesuítas, que mesmo reclusa aos colégios e aldeamentos indígenas, caiu no gosto do povo e se desmembrou em belas canções entoadas nas danças e festas de rua. D. João VI, ao chegar ao Brasil, encontrou um terreno fértil para a difusão da musica, mesmo com influências européias. Logo tomou duas importantes medidas: a criação da Capela Real e a criação do Real Teatro de São João. Tanto a Ópera quanto os cânticos religiosos estavam ligados diretamente às elites aristocráticas, simbolizando o poder, o luxo, a opulência da corte. Para o rei, era necessária a criação de condições básicas para a propagação de um estilo de musica que proporcionasse à população um “maior grau de elevação e de grandeza” característicos da civilização européia. Apesar dos esforços da monarquia de utilizar as operetas em comemorações e celebrações ligadas à Família Real, esses gêneros musicais se mesclaram às modinhas, lundus, chulas, fofas, entre outros estilos de musica popular, gerando gêneros operísticos originais que repercutiriam durante todo o século XIX. 
3 No inicio do século XIX as chamadas “artes mecânicas” eram as mais difundidas entre a população colonial, e eram popularmente chamadas de “artes úteis.” Compreendiam atividades ligadas diretamente a ofícios mecânicos tais como marcenaria, ourivesaria, construção de maquinário para produção de açúcar, entre outros. Após a chegada da Família Real em 1808, d. João implementou uma política para valorização e propagação das chamadas “Belas-artes”, neste documento identificadas como “artes liberais”. O novo Estado português nos trópicos passava assim a incentivar atividades artísticas mais variadas tais como pintura, desenho, escultura, teatro, poesia, musica, entre tantas outras. Aconselhado por seu ministro Antonio de Araújo Azevedo, o conde da Barca, um dos homens mais cultos de sua época, o rei contratou um grupo de artistas franceses com o objetivo de organizar uma Escola de Artes e Ofícios em terras brasileiras. A Missão Artística, como ficou conhecida, era liderada por Joachim Lebreton, antigo secretário das Belas-Artes do Instituto da França. A Escola Real das Ciências, Artes e Ofícios foi criada através de um decreto de agosto de 1816. As medidas da Coroa revelavam, no entanto, um conflito entre os artistas estrangeiros que desejavam a implementação de uma política estatal de propagação das belas-artes e os partidários da idéia de que estas “artes de luxo” deveriam se submeter às “artes úteis e necessárias,” necessárias no caso para o desenvolvimento de atividades econômicas ou ao menos de caráter mais prático.
4 A fundação da cidade de Salvador data de 1549, sendo, portanto, a primeira cidade criada no Brasil. Há controvérsias com relação ao mês e ao dia da fundação, o que levou uma comissão de representantes do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia sugerir 29 de março como data simbólica da fundação da cidade. Foi neste dia que houve o desembarque do primeiro governador-geral, Tomé de Souza, na enseada do Porto da Barra, episódio, este sim, consenso entre os historiadores. O governo-geral teve papel de relevância para a fundação da cidade que se deu um ano antes da instalação desta forma de governo. A idéia era a criação de uma cidade-fortaleza, no modelo das cidades medievais da Europa Ocidental, como primeiro passo para estruturação de um poder centralizador que tinha uma função tríplice: militar, política e administrativa. Essa característica foi reforçada após a ocupação holandesa de 1624. Salvador foi por 200 anos a sede do Governo-geral e se tornou o primeiro pólo de colonização da América Portuguesa. 
5 As primeiras aulas lecionadas na colônia portuguesa nas Américas foram resultado das atividades realizadas pelos colégios da Companhia de Jesus, que detiveram o monopólio do ensino aqui durante quase todo o período colonial. Essa situação mudaria com a Reforma Pombalina dos estudos que teve basicamente duas fases. A primeira se deu logo após a expulsão dos jesuítas, quando foram criadas as aulas régias de Primeiras Letras e de Gramática Latina. No entanto, o alcance dessas primeiras medidas foram muito limitadas. Apenas na segunda fase da reforma, a partir de 1768, viabilizou-se um ensino regularizado pela Coroa em varias capitanias na colônia. Pombal transferiu a direção dos estudos para a Real Mesa Censória e criou um tributo especifico para o financiamento dos professores, o subsídio literário. A abundância da arrecadação do imposto em algumas localidades estimulou o aparecimento de outras disciplinas. Surgiram assim as primeiras aulas de grego, filosofia, retórica e as relacionadas às belas-artes como desenho e figura. Com a presença da Corte no Brasil, as aulas passaram a ser denominadas de “cadeiras régias” que logo depois seriam absorvidas por academias e escolas financiadas pelo governo, como foi o caso da Real Academia de Desenho, Escultura e Arquitetura Civil inaugurada em 1820.
Sugestões de uso
Eixo temático:
História das relações sociais da cultura e do trabalho
História das representações e relações de poder
Temas:
Práticas e costumes coloniais
Costumes no Brasil de d. João VI
O Rio de Janeiro colonial