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A viagem de Alexandre Rodrigues Ferreira

Publicado: Quinta, 21 de Junho de 2018, 17h33 | Última atualização em Sexta, 22 de Fevereiro de 2019, 18h48

Carta dirigida ao ministro de Estado da Marinha e dos Negócios Ultramarinos, Martinho de Melo e Castro, em 18 de março de 1788, por Martinho de Souza e Albuquerque, informando o envio de caixotes de anil para a corte. Menciona uma carta do capitão João Pereira Caldas informando a posse de Manoel da Gama Lobo no governo do Rio Negro e a chegada do desenhador José Joaquim Freire para compor a expedição do naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira. Solicita ainda canoas, índios e mantimentos para a dita expedição.

 

Conjunto documental: Correspondência original dos governadores do Pará com a Corte. Notação: códice 99, volume 09.

Datas-limite: 1788 – 1788

Título do fundo: Negócios de Portugal

Código do fundo: 59

Argumento de pesquisa: Alexandre Rodrigues Ferreira

Data do documento: 18 de março de 1788

Local: Pará

Folhas: 25, 25v. e 26

 

Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor

 Pelo recibo, que esta acompanha, será a Vossa Excelência constante que fiz embarcar na charrua[1] dezenove caixões de anil[2], para serem entregues a ordem de Vossa Excelência nessa Corte: igualmente remeto a cópia da carta, que João Pereira Caldas[3] me escreveu quando fez aquela remessa, visto que o mesmo me pede que envie à Vossa Excelência a dita cópia, assim como a da relação do referido gênero. No dia nove do presente mês tive carta do mesmo João Pereira Caldas, escrita em doze de fevereiro, em qual me diz lhe continua a sua moléstia pelo que diz respeito ao embaraço das pernas, e do pouco dormir, mas que tem nutrição, não tem fastio, e vai vivendo, sem se achar contudo a sua queixa mais agravada. Igualmente me participou ter Manoel da Gama Lobo[4] tomado posse no dia nove de fevereiro do governo do Rio Negro[5], que Sua Majestade lhe conferiu, e certificando-me o mesmo, o referido governador em carta, que me escreveu de doze do dito fevereiro. Acha-se nesta cidade por mando do sobredito João Pereira Caldas o Desenhador José Joaquim Freire[6], que vem prover-se a esta cidade do que se lhe faz preciso para o seu transporte para Mato Grosso, para onde me diz o Capitão General João Pereira Caldas deve ir o Doutor Alexandre Rodrigues Ferreira[7], e seus companheiros, e para este transporte me requer agora o referido João Pereira Caldas canoas, índios, mantimentos, e outras coisas mais, que fico aprontando para lhe remeter, e a seu tempo enviasse a V. Exª. de tudo que lhe for, uma relação.

Hoje faço daqui expedir também duas canoas para Barcelos, que levam dinheiro, diversos gêneros, e mantimentos para o consumo da Expedição das Demarcações[8], indo tudo a entregar a ordem do Capitão General João Pereira Caldas, e igualmente lhe envio nesta ocasião os três caixotes com instrumentos destinados para as Demarcações do Rio Negro, que V. Exª. me dirigiu na charrua, e acusava no seu aviso de trinta do mês de outubro próximo passado, que me foi entregue no último de dezembro.

 Deus guarde a V. Exª. Pará

18 de março de 1788

 Ilmo. e Exmo. Sr. Martinho de Mello e Castro[9]

 Martinho de Souza e Albuquerque[10]                   

 

[1] Charrua: Navio-transporte de três mastros, dotado de um grande porão, mas com baixa capacidade para armamentos. Foi muito usado no século XVIII, e em parte do XIX, em substituição a urca (típica embarcação portuguesa do século XVII, de dois ou três mastros e com velas redondas ou latinas).

[2] Anil: Planta nativa do Brasil, que se estende da Amazônia a São Paulo, também conhecida como Indigofera ou índigo, suas propriedades na fabricação de tinturas já eram conhecidas dos povos indígenas. Desde o período colonial a tintura azul extraída do anil, que leva o mesmo nome, constituiu um dos produtos de exportação da colônia brasileira, utilizada como corante nas indústrias têxteis européias. A partir da segunda metade do século XVIII, sob o vice-reinado do marquês de Lavradio, o cultivo de anil é estimulado pelo estado e sua comercialização submetida ao monopólio real. Embora seja originário de boa parte do território brasileiro, a cultura do anil com vistas à exportação teve maior fomento nas capitanias do Rio de Janeiro e do Pará. No último quartel do setecentos, a coroa portuguesa, através da Fazenda Real passa a comprar todo o anil produzido no Rio de Janeiro a altos preços. Assim, a produção e exportação brasileiras atingem seu clímax, e o anil passa a figurar entre os três primeiros produtos na pauta de exportações fluminenses. A produção de índigo no Brasil sucumbe no início do XIX frente à revitalização da sua produção na Índia, em consonância com os interesses britânicos.

[3] João Pereira Caldas: Nasceu em Cambeses, Sende, Portugal, em 1724. Seguiu carreira militar servindo como sargento-mor durante o governo de Francisco Xavier de Mendonça Furtado, irmão do marquês de Pombal, no Pará. Foi o primeiro governador da capitania do Piauí entre 1759 e 1769 Em sua administração confiscou os bens dos jesuítas e os expulsou da capitania, em conformidade com as diretrizes pombalinas. Voltaria a ocupar o cargo de governador três anos mais tarde, quando governou o Estado do Grão-Pará, desempenhando papel fundamental na Viagem Filosófica comandada pelo naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira. Destacou-se como o agente estatal local que serviu de intermediário entre o naturalista e a secretária de Estado dos Negócios Ultramarinos, o que se verifica na vasta correspondência trocada entre os dois. Tomou parte nas expedições de demarcação decorrentes do tratado de Santo Ildefonso como Ministro Plenipotenciário a 4.ª Divisão das Reais Demarcações. Ainda como administrador colaborou ativamente com a remessa de produções naturais da colônia para metrópole portuguesa enriquecendo o Real Gabinete da Ajuda, os gabinetes de História Natural da Universidade de Lisboa e da Academia das Ciências de Lisboa, além da coleção particular da rainha. Retornou a Portugal em 1789, quando passou a integrar o Conselho Ultramarino, vindo a falecer em Lisboa em 1794.

[4] Manoel da Gama Lobo d’Almada: Militar português cumpriu degredo ainda jovem na praça de Mazagão, no Marrocos africano. Em 1769 lhe foi concedido o perdão real do degredo, o comando da fortaleza de Gurupá, na Amazônia, e o governo da Praça de São José de Macapá. Em 1771, retorna à África para dirigir a recém-fundada vila de Mazagão. Promovido a sargento-mor, solicita seu regresso à fortaleza de Macapá. Novamente no Brasil assume o governo da vila de Macapá até ser designado para o comando e governo militar do Alto do Rio Negro quando toma parte na expedição de demarcação de terras a cargo de João Pereira Caldas. Cabia-lhe reconhecer a geografia do território, o curso dos rios, lidar com os povos indígenas, organizar as povoações e plantações, desenvolvendo a cultura do anil, além de defender o território. Elevado a brigadeiro foi empossado governador da capitania de São José do Rio Negro, em 9 de fevereiro de 1788, assumindo também o comando das expedições de demarcação de limites decorrentes do Tratado de Santo Ildefonso, no lugar de Pereira Caldas. Como governador transferiu a capital da vila de Barcelos para Barra do Rio Negro em 1791. Morreu em 1799, ainda como governador do Rio Negro, sendo sepultado em Barcelos.

[5] Rio Negro : A capitania de São José do Rio Negro, subordinada ao Estado do Grão-Pará e Maranhão, foi criada em 3 de março de 1755, por sugestão do então governador do Grão-Pará Francisco Xavier de Mendonça. Encravada no coração da Amazônia, região fronteiriça com a América espanhola e alvo constante de disputas territoriais entre as coroas ibéricas, a capitania permitiria à administração portuguesa um controle mais efetivo do extenso território compreendido pelo Estado do Grão-Pará. Sua primeira capital, a aldeia carmelita de São José do Javari, foi logo substituída pelo arraial de Mauriá, seguido pela vila de Barcelos em 1758, e por fim Manaus, em 1791. Até a segunda metade do XVIII, os núcleos de colonização na região dividiam-se entre as missões organizadas por ordens religiosas e as fortalezas da barra do rio Negro, de Pauxis, Tapajós e Pauru responsáveis pela defesa de possíveis incursões estrangeiras e por reprimir rebeliões indígenas. A partir da criação da capitania de São José do Rio Negro, uma série de medidas é tomada com o objetivo de garantir a ocupação e controle do território. Ainda em 1755, a Coroa retira das ordens religiosas a administração temporal das missões entregando a homens laicos o governo de povoados e vilas, que recebem nomes portugueses. A metrópole passa a incentivar o povoamento da região por meio da concessão de privilégios aos colonos, como o exercício de cargos administrativos e a isenção de impostos. Uma nova política indigenista com estímulo ao casamento de brancos e índias também é adotada por Francisco Xavier de Mendonça, irmão do principal ministro do rei d.José, marquês de Pombal.

[6] José Joaquim Freire: Pintor e desenhista português nascido em Belas, concelho de Sintra, em 30 de março de 1760. Formou-se nas oficinas da Fundição do Arsenal Real do Exército. Entre 1780 e 1783 atuou como desenhista da Casa do Risco do Real Museu e Jardim Botânico da Ajuda. Integrou a equipe designada para Viagem filosófica ao Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá comandada pelo naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira na função de desenhista. Nesse período produziu desenhos, aquarelas de espécies da fauna e flora local. Participou como desenhista da produção de uma Carta Geral do Brasil, a pedido de d. Rodrigo de Sousa Coutinho, no ano de 1795. Seguiu carreira militar no Real Corpo de Engenheiros alcançando a patente de tenente coronel em 1837. Em 1822, inventou um carro de escadas para salvação de incêndios. Faleceu em Lisboa no mês de novembro de 1847.

[7] Alexandre Rodrigues Ferreira (1756-1815): Nascido em Salvador, Bahia, em 27 de abril de 1756, doutorou-se no ano de 1779, em Filosofia Natural, pela Universidade de Coimbra reformada por Pombal. Sendo um dos primeiros naturalistas formados em Portugal tomou parte no projeto das Viagens Filosóficas idealizadas pelo naturalista italiano Domenico Vandelli, comandando a expedição às capitanias do Grão-Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá. Durante mais de dez anos, de 1783 a 1792, a equipe composta por um jardineiro botânico e dois riscadores recolheu espécies da flora e da fauna brasileiras, classificou-as, acondicionou-as e enviou remessas a Portugal, consoante com os objetivos do Estado português setecentista de empreender um inventário da natureza de seus domínios. Igualmente, informou sobre as condições administrativas, econômicas, urbanas e demográficas dos povoados que percorreu. A expedição produziu farto material textual, ainda na fase de planejamento as Instruções relativas a Viagem Philosophica, orientavam a equipe sobre a realização das tarefas concernentes à viagem. Ferreira escreveu, ainda, memórias zoológicas, botânicas, mineralógicas e histórico-geográficas, diários, relatórios e trocou intensa correspondência com as autoridades locais e metropolitanas. Cabia ao naturalista, também, a inspeção dos desenhos a cargo dos riscadores Joaquim José Codina e José Joaquim Freire. Ao retornar a Lisboa, em 1793, o naturalista foi nomeado vice-diretor do Real Gabinete de História Natural e do Jardim Botânico da Ajuda e não deu continuidade aos estudos e sistematização do material recolhido como pretendia Vandelli para produção de uma História Natural das Colônias. Durante a ocupação francesa em Lisboa, em 1808, parte do material recolhido pela expedição foi saqueado e levado à França, sendo recuperado anos mais tarde. Alexandre Ferreira faleceu em 1815, em Lisboa, sem ver sua obra publicada. Somente a partir de meados do século XIX seus diários de viagem e algumas de suas memórias seriam publicados.

[8] Expedição das Demarcações: A despeito do Tratado de Tordesilhas que, em 1494 dividiu o novo mundo entre Portugal e Espanha, os três primeiros séculos de colonização ibérica nas Américas assistiram ao avanço da presença lusa pela fronteira imaginária, favorecida em parte pela União Ibérica (1580-1640). Com intuito de atualizar Tordesilhas, Portugal e Espanha assinam, em 1750, o Tratado de Madri quando Portugal incorpora oficialmente o Rio Grande do Sul, Mato Grosso e a Amazônia conforme o princípio do uti possidetis que garantia a posse aos ocupantes da terra. Em decorrência do Tratado de Madri foram promovidas expedições integradas por cartógrafos, engenheiros, astrônomos, geógrafos e riscadores, em geral italianos e alemães, encarregadas de demarcar as fronteiras. Uma das diretrizes da demarcação era o respeito ao curso dos rios, montanhas e acidentes geográficos como demarcadores naturais. Entretanto, na segunda metade do século XVIII, os impasses permanecem, principalmente na região platina, alvo de constantes conflitos militares. De um lado, a Espanha não se conformava com a presença portuguesa em Sacramento, território espanhol segundo o Tratado de Madri, embora estratégico para as pretensões portuguesas no Rio da Prata, e a Portugal interessava a anexação dos Sete Povos das Missões região cedida aos espanhóis. A solução viria com novo tratado, Santo Ildefonso, celebrado em 1777, de caráter preliminar, onde Portugal abria mão da Colônia de Sacramento e das Missões. A partir de Santo Ildefonso são estabelecidas quatro comissões demarcadoras de limites, compostas por dois comissários, dois engenheiros e técnicos incumbidos do mapeamento cartográfico das zonas de fronteira. Ao contrário das expedições decorrentes do Tratado de Madri as do último quartel do XVIII contaram com profissionais portugueses, advindos dos bancos da Universidade de Coimbra reformada. Outra particularidade dessas expedições que refletia as reformas na Universidade, e as novas instituições portuguesas como a Academia Real de Ciências de Lisboa e o Museu de História Natural, foi a crescente incorporação de outros conhecimentos que garantissem o efetivo povoamento do território, como a História Natural. Ao lado das descrições geográficas e das anotações de latitude e longitude, aparecem de forma mais sistemática nos relatórios de viagem descrições da flora e da fauna, observações sobre as populações indígenas, mapas populacionais e referências às técnicas agrícolas empregadas. O documento refere-se à Expedição de demarcação comandada pelo astrônomo Francisco José de Lacerda e Almeida, doutor em matemática pela Universidade de Coimbra, que durante dez anos (1780-1790) percorreu as capitanias do Pará, Rio Negro, Mato Grosso, Cuiabá e São Paulo. 

[9]  Castro, Martinho de Melo e: Nascido em Lisboa, em 1716, foi secretário de Estado dos Negócios da Marinha e Domínios Ultramarinos de 1770 até sua morte em 1795. Estudou latinidade, filosofia e teologia na Universidade de Évora, além de direito canônico, em Coimbra, onde se formou bacharel em 1744. Iniciou a carreira em 1751, como embaixador em Haia, na Holanda, e mais tarde em Londres atuou de forma decisiva na solução de conflitos entre Portugal e Inglaterra, decorrentes da Guerra dos Sete Anos, o que levou a sua nomeação à Secretaria de Estado. Durante sua gestão como secretário de Estado da Marinha e Domínios Ultramarinos desempenhou papel central no planejamento e execução das Viagens Científicas e Filosóficas às colônias portuguesas. Melo e Castro era o principal agente da coroa envolvido no planejamento das viagens e na interlocução com os naturalistas e administradores locais com vistas à solução de problemas no decurso das expedições. O secretário foi, ainda, diretor do Real Museu e Jardim Botânico da Ajuda e destinatário das remessas de produtos naturais provenientes das viagens científicas e encaminhadas aos museus de História Natural em Lisboa e Coimbra para sistematização, análise e classificação. Demonstrou habilidade na administração pública, muito embora seus escritos apontem que não foi um grande político ou teórico, não reconhecendo o início da crise do sistema colonial durante sua governação. Foi sob sua gestão que ocorreu a Inconfidência Mineira (1789), tendo partido de Melo e Castro a ordem para que o governador da capitania de Minas Gerais, Luís António Furtado de Castro do Rio de Mendonça e Faro, Visconde de Barbacena, promovesse a devassa dos envolvidos.

[10] Martinho de Souza e Albuquerque: Militar português era coronel de Infantaria do Regimento da Guarnição de Lisboa quando foi promovido a governador e capitão geral do estado do Grão-Pará. A viagem filosófica de Alexandre Rodrigues Ferreira acompanha todo período de sua administração, de 1783 a 1790. Souza Albuquerque desempenhou papel fundamental na comunicação entre o naturalista e a metrópole. Durante seu governo comandou uma expedição pela capitania do Pará, através do Rio Amazonas, em setembro de 1784. Em 19 de setembro de 1790 regressa a Lisboa e assume como Governador das Armas da província da Beira.

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